A reportagem do Correio Braziliense “Uma ameaça para o lago: espécies invasoras avançam sobre o Paranoá”, publicada em 2 de junho de 2026, acendeu um alerta importante para Brasília. O texto mostra como um “tapete verde” de plantas aquáticas tomou conta da região do Deck Sul, no Lago Paranoá, um dos principais cartões-postais da capital, e dá voz a especialistas que associam o fenômeno a sinais de poluição e desequilíbrio ambiental.
Segundo a matéria, o espelho d’água está tomado por plantas como aguapé-miúdo, lentilha-d’água e salvínia. São folhas pequenas, arredondadas, que à distância podem até parecer um efeito estético. Mas, do ponto de vista da ciência, funcionam como um recado claro sobre a qualidade da água.
O professor José Francisco Gonçalves Júnior, do Departamento de Ecologia da UnB e presidente da Tropical Water Research Alliance (TWRA), ouvido pelo jornal, explica que essas plantas estão ligadas a um processo chamado eutrofização: quando há excesso de nutrientes (como fósforo e nitrogênio) chegando ao lago, em geral trazidos por esgoto clandestino e por efluentes de estações de tratamento.
“Essas plantas aquáticas são um bioindicador de que algo não vai bem. Elas mostram que estamos colocando mais nutrientes no lago do que ele consegue suportar”, alerta. “Se nada for feito na escala da bacia, corremos o risco de degradar, de forma silenciosa, um dos principais patrimônios ambientais e paisagísticos de Brasília.”
A reportagem lembra ainda que, mesmo depois do tratamento, parte dos nutrientes, de fármacos, microplásticos e metais permanece na água que chega ao lago. A Caesb, por sua vez, informa que desde o início de 2026 já retirou cerca de 2,5 mil metros cúbicos de plantas aquáticas e que o monitoramento é permanente, reforçando que a presença dessas espécies é um fenômeno natural e que não há risco para os usuários.
O paralelo com a Lagoa da Pampulha
Para entender a dimensão do alerta, vale olhar para um caso que a ciência acompanha há décadas: a Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Assim como o Paranoá, a Pampulha é um lago artificial, formado por represamento, integrado a um projeto urbano e paisagístico de grande visibilidade.
A represa da Pampulha foi construída entre 1936 e 1943, com o represamento do Ribeirão Pampulha. O conjunto arquitetônico ao redor da lagoa — igreja, antigo cassino, clube, casa de baile — foi projetado por Oscar Niemeyer, com jardins de Roberto Burle Marx, e tornou-se Patrimônio Cultural da Humanidade em 2015, reconhecido pela Unesco.
O Lago Paranoá, em Brasília, também foi pensado como peça central de um projeto urbano moderno. Ele começou a ser formado no fim dos anos 1950, com o represamento do Rio Paranoá, dentro do plano urbanístico de Lúcio Costa, em uma cidade que também tem a marca arquitetônica de Niemeyer.
A comparação, portanto, não é aleatória: trata-se de dois grandes espelhos d’água artificiais, tropicais, criados em épocas próximas, com função paisagística, simbólica e de infraestrutura urbana. E ambos passaram, e passam, por pressões crescentes da urbanização em suas bacias.
O que a Pampulha já mostrou
Um artigo publicado em 2016 no Boletim da Associação Brasileira de Limnologia, assinado por André Magalhães e colaboradores, faz uma síntese da história ambiental da Lagoa da Pampulha ao longo de cerca de 70 anos. Em resumo:
- A partir de 1950 – A lagoa começa a sofrer assoreamento (acúmulo de sedimentos no fundo), processo que se intensifica a partir da década de 1980 com a ocupação irregular e a perda de vegetação na bacia.
- Anos 1980 em diante – Com mais esgoto doméstico e industrial chegando pelos córregos, a Pampulha entra em forte eutrofização: a água fica mais turva, aumentam as floras de algas e cianobactérias (algumas potencialmente tóxicas) e ocorre a proliferação intensa de aguapés, além de episódios de mortandade de peixes a partir de 1986.
- Décadas seguintes – Espécies exóticas/invasoras (caramujos, peixes e tartarugas não nativas) se estabelecem na lagoa, alterando a fauna original e contribuindo para o desequilíbrio ecológico.
- Anos 2010 – Com o reconhecimento da Pampulha como Patrimônio Mundial, a Unesco passa a cobrar ações de despoluição. Prefeitura e companhia de saneamento intensificam dragagens, instalam estações de tratamento de águas afluentes e adotam tecnologias de biorremediação para reduzir fósforo e algas.
Essas ações trouxeram melhoras: em diferentes períodos, relatórios técnicos registram redução de fósforo total, de algas, de coliformes e melhora da aparência da água. Mas os próprios autores do artigo de 2016 fazem um alerta: enquanto as fontes de poluição na bacia continuarem ativas e as espécies exóticas permanecerem no sistema, a Pampulha seguirá vulnerável. Cuidar apenas do espelho d’água — tirar plantas, dragar, clarear a água — sem enfrentar as causas na bacia é, nas palavras dos pesquisadores, “colocar a sujeira para debaixo do tapete”.
O que isso tem a ver com o Paranoá
O Lago Paranoá também tem uma trajetória de eutrofização registrada em estudos e relatórios desde o fim dos anos 1950. Durante muito tempo, recebeu esgoto doméstico e cargas de fósforo em volumes que afetaram a transparência, a presença de algas e a qualidade geral da água. A instalação de estações de tratamento de esgoto e medidas de gestão ajudaram a reverter parte desse quadro, melhorando a condição de grandes porções do lago a partir da década de 1990.
O cenário descrito pelo Correio Braziliense em 2026 mostra, porém, que o sistema continua sensível:
- A explosão de plantas aquáticas flutuantes indica excesso de nutrientes e condições físicas favoráveis (água mais parada, pouca renovação).
- Especialistas apontam lançamentos clandestinos de esgoto e cargas residuais de nutrientes em efluentes tratados como fatores importantes.
- A presença de fármacos, microplásticos e metais, que não são totalmente removidos no tratamento convencional, reforça a complexidade do problema.
Do ponto de vista da população, a pergunta é direta: “Isso é perigoso?”. Em termos de contato imediato, a resposta tende a ser mais tranquila — encostar na planta em si não é o problema. Mas o recado que a ciência dá é mais amplo: se o lago está produzindo esse “tapete verde”, é porque há um desequilíbrio acontecendo por baixo da superfície.
Como resume José Francisco Gonçalves Júnior:
“Não se trata de pânico, mas de responsabilidade. O Lago Paranoá é uma peça central da paisagem de Brasília e uma estrutura viva, ligada à biodiversidade, ao lazer e ao futuro da cidade. Se a gente só tira planta e não olha para o que chega pela bacia, vamos repetir histórias que já conhecemos em outros lugares.”
Aprender com o que já foi visto
A comparação com a Lagoa da Pampulha, portanto, é feita como referência, e não como sentença. O caso mineiro mostra, com décadas de dados, que:
- problemas em reservatórios urbanos se acumulam pouco a pouco;
- sinais como excesso de plantas aquáticas e de algas são avisos precoces;
- cuidar apenas do espelho d’água, sem encarar as fontes de poluição na bacia, produz melhoras limitadas e temporárias.
O Lago Paranoá ainda tem uma vantagem importante em relação à Pampulha: tempo para agir antes que a degradação se torne crônica. Isso passa por:
- tratar a bacia hidrográfica como unidade de gestão, enfrentando esgotos clandestinos, poluição difusa e ocupação irregular;
- fortalecer o monitoramento contínuo e transparente, com dados acessíveis ao público;
- integrar ações de saneamento, planejamento urbano e proteção de margens e nascentes;
- reconhecer o lago como infraestrutura ecológica essencial, não apenas como cenário.
Para a TWRA, cuja missão é “preservar o acesso à água de qualidade com sustentabilidade e governança nos ecossistemas tropicais” e que se propõe a ser o principal interlocutor de soluções sistêmicas para as águas tropicais no Brasil e na Austrália, o episódio do Paranoá reforça a urgência de unir ciência, gestão pública e participação social em torno de decisões baseadas em evidências, e não apenas em aparências.
Onde ler a reportagem original
A matéria citada neste artigo foi publicada pelo Correio Braziliense em 2 de junho de 2026, na editoria Cidades, com o título:
“Uma ameaça para o lago: espécies invasoras avançam sobre o Paranoá”
Ela pode ser acessada pelo link acima, ou pela edição digital do dia 2/6/2026.
Referências principais utilizadas neste texto incluem o artigo de André L. B. Magalhães et al. (2016), publicado no Boletim da ABLimno, documentos oficiais sobre a Lagoa da Pampulha, relatórios de monitoramento do Lago Paranoá e a reportagem do Correio Braziliense de 02/06/2026.




