A discussão sobre clima, por muito tempo, ficou dividida entre duas caixas: de um lado, as grandes declarações políticas; de outro, a produção acadêmica que nem sempre chega à tomada de decisão. Nos países do BRICS, esse “vão” está cada vez mais no centro do debate. Isso ocorre não por romantismo científico, mas por necessidade prática: extremos climáticos, riscos em cadeia, pressão por transição energética e disputa por infraestrutura tecnológica.
É nesse pano de fundo que acontece, em 16/04, o Seminário OCTI — Panorama da produção científica e inteligência climática no BRICS. A promessa do encontro é simples e valiosa: trocar o “eu acho” por dados e evidências sobre a produção científica do bloco em inteligência climática, com um informe voltado a leitura estratégica do cenário.
Em 2024/2025, a cooperação do BRICS em ciência, tecnologia e inovação passou a tratar prospecção tecnológica (foresight) como ferramenta para orientar prioridades do Sul Global. Nesse debate, uma coisa chamou atenção: a convergência em torno da mudança do clima, apontada por representantes do próprio processo de cooperação, inclusive com menção ao peso político do tema no calendário brasileiro, às vésperas da COP30.
O recado implícito é direto: clima deixou de ser “mais um eixo” e virou chave organizadora de iniciativas em CT&I.
Essa convergência importa porque reorganiza investimentos, redes de pesquisa, infraestrutura de dados e, principalmente, o tipo de conhecimento que os governos precisam com urgência: previsões melhores, capacidade de resposta e desenho de políticas que se sustentem em evidências.
O que “inteligência climática” significa no mundo real
A expressão pode soar abstrata, mas na prática ela costuma aparecer quando dados e ciência são usados para responder perguntas muito concretas: qual o risco nos próximos dias? e nos próximos anos? onde está a vulnerabilidade? o que reduz perdas? o que melhora adaptação?
Um exemplo claro vem da cooperação científica do BRICS em pesquisas oceânicas e polares, onde o foco inclui modelagem oceânica e atmosférica para previsão de desastres, monitoramento, biodiversidade marinha e ambientes costeiros. A própria dinâmica do grupo revela gargalos típicos da inteligência climática: falta de dados em tempo real, necessidade de melhorar sistemas de previsão e reforçar capacidades técnicas.
Em outras palavras: não basta publicar; é preciso transformar conhecimento em capacidade operacional.
Produzir ciência é essencial – mas colaboração ainda é o “calcanhar de Aquiles”
Um ponto sensível é que o BRICS tem escala demográfica, econômica e científica para liderar agendas, mas enfrenta o desafio de converter potencial em cooperação efetiva.
As Academias de Ciências do BRICS defenderam a criação de uma rede de soluções climáticas, com foco em tecnologias para transição energética, e também programas conjuntos de IA. Ao mesmo tempo, apontaram uma “lacuna significativa” na colaboração científica e tecnológica do bloco: os níveis de publicações conjuntas e inovação ainda estariam abaixo do que seria esperado para um agrupamento desse tamanho.
Esse ponto conversa diretamente com a utilidade de um panorama como o do OCTI: quando você mapeia produção científica, redes e temas, fica mais fácil enxergar onde existe massa crítica, onde há fragmentação, e onde parcerias fariam diferença.
IA, clima e trabalho: quando o tema sai do laboratório e entra no cotidiano
A inteligência climática também está ficando mais “transversal”. Um sinal disso é a declaração dos Ministros do Trabalho e Emprego do BRICS, que tratou conjuntamente dos impactos da inteligência artificial e da mudança do clima no mercado de trabalho, com ênfase em proteção social e requalificação profissional.
É uma pista importante: governos começam a encarar a agenda climática-tecnológica como um pacote que envolve produtividade, empregos, formação e proteção; não apenas emissão e meta. Esse é o tipo de conexão que aumenta a demanda por conhecimento aplicado: métricas comparáveis, metodologias, evidência pública e linguagem acessível para gestores e sociedade.
Para a TWRA, divulgar o seminário de forma explicativa (e não como “release de evento”) ajuda a consolidar um posicionamento: ser um ponto de encontro entre evidência científica, discussão pública e caminhos de solução.
Há um elemento estratégico adicional: quando o debate internacional se acelera (com reuniões, grupos de trabalho e propostas de redes) ganha relevância quem consegue traduzir o que está acontecendo sem hype e sem cinismo. E inteligência climática, no fim, é isso: reduzir incerteza para decidir melhor, mais cedo e com menos custo humano e econômico.
Seminário OCTI — Panorama da produção científica e inteligência climática no BRICS
📅 16/04 | 🕒 15h às 17h30 | Híbrido (presencial + online)
- Inscrição (Sympla): Inscrição Presencial | Online
- Transmissão (YouTube): link da live
- OCTI — panoramas: acessar panoramas
- OCTI — recorte Brasil: panoramas Brasil
O que observar no Seminário OCTI
Abaixo listamos itens a serem observados no seminário com o objetivo de guiar espectadores da sociedade civil e alunos interessados:
1) O que o informe chama de “inteligência climática”
Vale prestar atenção na definição operacional usada: se o recorte está mais em serviços climáticos/alerta e risco, em modelagem e projeções, ou em IA aplicada a emergências climáticas. Essa conexão entre IA e prevenção/mitigação de desastres aparece com força na agenda BRICS recente.
2) Quais temas estão puxando a produção científica no BRICS (e quais ficaram para trás)
O mais útil aqui é identificar tendências e lacunas: que tópicos crescem rápido (por exemplo, adaptação, extremos, uso de IA) e quais aparecem menos do que deveriam — especialmente quando o próprio BRICS fala em desenvolvimento sustentável e resposta a desafios globais.
3) Cooperação “de verdade”: coautoria, redes e parcerias entre países do bloco
Um ponto quente para observar é se o panorama evidencia colaboração BRICS-BRICS (publicações conjuntas, redes, projetos) ou se os países seguem produzindo mais em trilhas paralelas. Isso dialoga com o diagnóstico público das Academias de Ciências: existe uma lacuna significativa na colaboração científica e tecnológica dentro do BRICS, apesar do potencial.
4) Do artigo ao impacto: quais linhas de pesquisa viram “solução climática”
As Academias propuseram uma Rede de Soluções Climáticas (com foco em transição energética) e defenderam coordenação de inovação para tecnologias como biocombustíveis sustentáveis, hidrogênio verde e economia circular. Um bom filtro é observar se o informe do OCTI aponta massa crítica em temas que já estão no radar político-científico do bloco — e o que falta para virar solução replicável.
5) Transição justa e mundo do trabalho: onde a ciência conversa com política pública
Se o seminário tocar em aplicações (ou evidências) ligadas a impactos socioeconômicos, isso ajuda a conectar com outra agenda do BRICS: o debate sobre IA + mudanças climáticas no mercado de trabalho, políticas de proteção social e transição justa.
6) O “para que” do panorama: como isso se encaixa em decisões e prioridades do BRICS
Observe se o informe é apresentado como insumo para priorização, financiamento, cooperação internacional e governança — alinhado ao movimento do BRICS de tratar IA e clima como agendas estruturantes e conectadas a inclusão e desenvolvimento.
Mais do que anunciar um evento, a TWRA acompanha o seminário como parte de um debate maior: num BRICS que tenta alinhar ciência, IA e respostas à emergência climática, mapear o que a pesquisa realmente entrega, e onde estão os vazios, virou etapa necessária para acelerar soluções.



